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Virtual.

Virtualmente eu tenho amigos. Virtualmente eu tenho um amor ou um namorado. Virtualmente eu posso ser o que eu quiser. Virtualmente as pessoas me conhecem e não me questionam. Virtualmente não sou obrigada a aguentar nada, nem ninguém. Virtualmente posso viver melhor que qualquer um. Mas, infelizmente, a verdade é que precisamos de uma vida real, não virtual. Como viver interagindo com pessoas somente pelo computador? Mesmo com os melhores amigos do mundo não podemos viver sem sentir a pessoa...
Virtualmente as coisas podem parecer mais fáceis, mas de repente se tornam difíceis... Palavras, mesmo que sejam somente digitadas, ferem, muito mais do que podemos imaginar antes de ter uma experiência. Virtualmente você se envolve, você sente, você sorri, você fica alegre, você sofre, fica triste, infeliz, perde a vontade de fazer as coisas... Virtualmente você sente saudade das  pessoas que você ama, você morre de vontade de conhecê-las pessoalmente. Virtualmente você só tem palavras para se lembrar e só quer ter um encontro, um encontro para guardá-lo para sempre, porque seria o melhor encontro da sua vida, o melhor dia, os melhores momentos, com uma pessoa que você conhecia só virtualmente e não sabia bem se ela falava a verdade, mas que depois desse encontro você só ganhou mais confiança e mais amor. Virtualmente você vive do seu jeito, sofre do seu jeito, sente do seu jeito... e acredita do seu jeito. Virtualmente você precisa ter muita confiança nas pessoas que conhece, vai saber se elas dizem a verdade? A verdade é que virtualmente você tem muito, mas sempre quer mais um pouco. Virtualmente você não conhece a pessoa de verdade. Virtualmente você quer a realidade, você quer sentir o cheiro, o abraço da pessoa com quem você conversa. Virtualmente eu vivo muito bem, mas um pouco de contato real nunca é demais.


By Jú.

Eu sei, mas não devia.

Eu sei, mas não devia.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. 
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos 
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. 

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. 
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. 
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. 
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. 
A tomar café correndo porque está atrasado. 
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. 
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. 
A sair do trabalho porque já é noite. 
A cochilar no ônibus porque está cansado. 
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. 
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. 
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, 
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. 
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. 
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. 
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. 

E a ganhar menos do que precisa. 
E a fazer filas para pagar. 
E a pagar mais do que as coisas valem. 
E a saber que cada vez pagará mais. 
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. 

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. 
A abrir as revistas e a ver anúncios. 
A ligar a televisão e a ver comerciais. 
A ir ao cinema e engolir publicidade. 
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 
A gente se acostuma à poluição. 

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. 
A luz artificial de ligeiro tremor. 
Ao choque que os olhos levam na luz natural. 
Às bactérias da água potável. 
A contaminação da água do mar. 
A lenta morte dos rios. 

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, 
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. 

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, 
um ressentimento ali, uma revolta acolá. 
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. 
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. 

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. 
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo 
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. 
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se 
da faca e da baioneta, para poupar o peito. 
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, 
de tanto acostumar, se perde de si mesma. 

Marina Colasanti.


* E a gente se acostuma a amar e não ser correspondido, a sofrer por amor, a ter contato com as pessoas que você ama só pela internet, a gente se acostuma, mas não devia =/

By Jú.